Muitas organizações, na atualidade, têm adotado uma cultura que dá uma importância cada vez maior aos dados que elas geram. A tendência é que também haja a adoção de uma cultura de dados no setor público.
Este movimento se baseia na ideia difundida atualmente que dados são o novo petróleo, pois, tal como o este precioso líquido negro, os dados brutos não são de grande valor. Todavia, se corretamente analisados e tratados, geram informações valiosíssimas que se transformam em conhecimento, vantagens competitivas, melhorias organizacionais entre outros benefícios.
Por isso, é importante construir uma cultura de dados para que as pessoas tenham consciência da importância dos dados para uma organização, e que decisões operacionais e estratégicas sejam tomadas, não com base em intuição ou suposições, mas a partir de dados mensuráveis, precisos e confiáveis. E por que a gestão pública precisa criar esta cultura de dados?
Pergunte a um cidadão comum o que acha dos serviços públicos, tais como educação, saúde e segurança, que são ofertados a ele ou como ele se sente ao precisar recorrer a um órgão como o DETRAN ou a uma unidade básica de saúde. Ou então, pergunte se ele acredita que o dinheiro que os governos de diferentes esferas arrecadam, sob a forma de taxas e tributos, está sendo bem gasto.
Muito provavelmente, a resposta que será dada a estas perguntas não é aquilo que os gestores públicos gostariam de ouvir. Ele irá dizer, por exemplo, que os serviços públicos são de baixa qualidade e que o governo emprega os seus recursos de modo ineficiente.
Este posicionamento é reforçado por uma pesquisa realizada em 2025, pelo instituto Atlas/República que mostra que quase a metade dos brasileiros (48%) está insatisfeita com a qualidade dos serviços públicos. Outra pesquisa, efetuada pelo Instituto Datafolha, aponta que 87% dos brasileiros estão insatisfeitos com o Sistema Único de Saúde.
Diante deste quadro desfavorável, compete aos gestores públicos tomar providências para melhorar a imagem dos serviços públicos junto à população e fazer com que as decisões tomadas por estes gestores sejam orientadas a dados

O que é cultura de dados?
Uma cultura de dados ou cultura orientada a dados ou ainda cultura data-driven é um ambiente organizacional que reconhece a importância da utilização de dados para a tomada de decisões e resolução de problemas. Em um ambiente assim, os dados são objetivos, confiáveis e estão sempre acessíveis.
Os pilares de uma cultura de dados
Uma cultura orientada a dados se fundamenta em vários pilares que se entrelaçam e formam um alicerce que permite que este objetivo se concretize:
- Métricas e KPIs: deve-se definir métricas e indicadores-chave de desempenho (KPIs) para acompanhar o avanço na implantação da cultura de dados na organização;
- Liderança e comprometimento: líderes e gestores devem estar comprometidos com a esta cultura e incentivar a sua adoção por parte dos subordinados;
- Infraestrutura tecnológica: a organização precisa ter uma infraestrutura tecnológica adequada para a coleta, processamento e análise de dados;
- Governança de dados: consiste no estabelecimento de políticas para garantir confidencialidade, integridade e a segurança dos dados, bem como a adequação às normas que regulam o tratamento de dados, como a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados);
- Capacitação e desenvolvimento de habilidades: os colaboradores devem receber treinamento adequado para lidar com os dados de forma correta e eficiente;
- Cultura organizacional: a organização deve ter uma cultura que promova o uso de dados para a tomada de decisões e o compartilhamento de informações.
A cultura de dados é um processo de amadurecimento em que a postura da organização em relação a seus dados passa por várias etapas até atingir um nível máximo de excelência. Em um nível mais baixo de maturidade, a organização é resistente a dados, ela não faz nada com os dados que ela dispõe. Em um dado momento, porém, ela se torna consciente em dados e passa a ter interesse na análise dos dados (iniciação em dados). Posteriormente, a organização passa a ser guiada por dados, ou seja, começa a utilizar os dados de forma mais consistente (fase analítica). Na etapa seguinte, ela se torna experiente em dados, utilizando dados na maior parte da produção, com isso passa a gerar insights. Finalmente a organização se torna orientada a dados ou data-driven. Esta é a fase de estratégia em dados.

A diferença entre dado e informação
Uma coisa que vale a pena ressaltar é que dado e informação são conceitos distintos. O primeiro consiste em um registro bruto, sem especificação de contexto, podendo ser um número (ex.: 21), uma data (ex: 02/05/2026), um texto (ex: Fulano de Tal). Já informação é um conjunto de dados tratados e contextualizados. Por exemplo, suponhamos que os dados acima se refiram a um registro de pacientes que procuraram atendimento em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), neste caso poderia ser: “Fulano de Tal, 21 anos de idade, solicitou atendimento na UPA em 02/05/2026” .
Por que implementar uma cultura de dados no setor público?
Joseph Moses Juran (1904-2008), um dos maiores especialistas em Gestão de Qualidade da história, dizia que “quem não mede, não gerencia e quem não gerencia, não melhora!”. Esta frase resume em poucas palavras a motivação para a adoção de uma cultura de dados por parte das organizações. Deve-se levar em conta que os dados fornecem métricas extremamente relevantes para a tomada de decisões que levam à melhoria da qualidade dos serviços prestados e da gestão dos recursos materiais, humanos e financeiros.
Através da extração e medição correta dos dados pode-se identificar, por exemplo:
- Falhas operacionais na utilização de sistemas de informação,
- Gargalos na infraestrutura que provocam demora no atendimento ao público;
- Produtos e serviços estão dando maior retorno financeiro.
Enfim, são vários os benefícios da extração e medição dos dados.
Os desafios da gestão pública
Quando comparado com a iniciativa privada, o setor público possui algumas particularidades que tornam a adoção de uma cultura orientada a dados mais importante e desafiadora:
- Pelo princípio da legalidade, o agente público – diferentemente do particular, que pode fazer tudo o que a lei não proíbe – só pode fazer o que está expressamente previsto em lei. Isto torna alguns processos, tais como o de aquisição de bens e serviços, mais lentos e burocráticos;
- Enquanto que a iniciativa privada objetiva retorno financeiro, a gestão pública opera em interesse da coletividade. Já que não está limitado pela busca do lucro, o Estado pode atuar em áreas em que a iniciativa privada não tem interesse. Por outro lado, a ausência de pressão por resultados financeiros pode levar a uma gestão de recursos mais desleixada por parte dos agentes públicos;
- O Estado opera em uma escala muito maior que a iniciativa privada. Isto porque presta serviços, tais como saúde, educação, seguridade social e infraestrutura urbana, que são predominantemente de sua competência exclusiva. Consequentemente, administrar corretamente os recursos que a máquina pública tem em mãos é uma tarefa extremamente complexa.
Em se tratando de dados especificamente, são muitos os obstáculos a serem vencidos:
- Resistência cultural a mudanças de paradigmas e à adoção de soluções inovadoras. Por exemplo, uma pesquisa realizada no final de 2024 pela Fundação Ulysses Guimarães, revelou que 38% das organizações federais não utiliza nem sequer planejam utilizar soluções de inteligência artificial (IA), que é uma importante ferramenta para coleta e análise de dados. Nota-se também, em muitas equipes, um receio do que os dados podem revelar, particularmente com medições de desempenho;
- Os órgãos públicos possuem diversos sistemas de informação e que normalmente são fornecidos por organizações distintas e que não conversam entre si;
- Informações gravadas em fontes não estruturadas (documentos) ou semiestruturadas (planilhas), de modo disperso e desordenado, o que prejudica a qualidade dos dados.
Como criar uma cultura de dados no setor público?
Para você, que está no serviço público e é gestor ou analista de dados, segue abaixo algumas etapas necessárias para levar seu setor ou órgão de um nível 0 de maturidade em dados até o nível máximo, portanto orientada a dados.
Defina metas
Antes de mais nada, estabeleça objetivos claros e realistas e priorize aqueles que você julgar mais importantes. Defina o que você pretende fazer com os dados a serem extraídos.. Por exemplo, você pode suspeitar que seu setor está com uma taxa de absenteísmo alta ou que está gastando muito com a frota de veículos Então, extraia os dados que possam confirmar então tome decisões com base no que eles lhe mostram.
Domine as tecnologias
Não é possível tomar decisões com base em dados se eles não estiverem disponíveis ao gestor. Por isso, é necessário contar com pessoas na equipe que tenham conhecimentos em bancos de dados, planilhas eletrônicas e ferramentas para a visualização de dados. O Microsoft Power BI e o Google Data Studio são exemplos de aplicações para criação de painéis e dashboards. Também é desejável ter conhecimentos em linguagem e o Python, que permite fazer automações, tratamento e análise estatísticas dos dados.
Comece pequeno
Em primeiro lugar, deve-se ter consciência de que uma cultura de dados é implementada de forma gradual e que leva tempo para alcançar um nível de maturidade avançado em relação a dados. Deve-se começar com alguns dashboards simples, mas que permitam demonstrar todo o poder de fogo dos dados e, só depois, parta para as soluções mais bem elaboradas. Em poucas palavras, crie valor primeiro e melhore depois.
Engaje os servidores
Oriente os servidores de sua repartição ou órgão sobre a importância da utilização de dados como ferramenta para a melhoria de processos, economia de recursos, dentre outros benefícios. Faça treinamentos para que todos adquiram letramento em dados, que é a capacidade de ler, produzir e comunicar em dados. Envolve habilidades como compreender e interpretar informações em tabelas, gráficos e painéis, bem como saber como produzir os dados da forma mais eficiente possível, de modo a facilitar sua posterior análise e também saber como transmitir o que os dados revelam.
Aprenda a contar histórias a partir dos dados
Desenvolva a habilidade do storytelling, que é a arte de fazer com que os dados contem uma história. Para isso, é importante seguir os passos abaixo:
- Crie dashboards claros e objetivos, com foco em seu público alvo;
- Evite sobrecarregar seu público com elementos visuais desnecessários. Mantenha somente aqueles indispensáveis à compreensão da informação;
- Crie gráficos que permitam comparar a situação atual com a situação anterior
- Insira elementos visuais que direcionam a atenção do público para os pontos mais importantes;
- A partir dos gráficos e tabelas, desenvolva uma narrativa estruturada que siga uma sequência problema → análise→ solução;
- Utilize gatilhos emocionais que cativem seu público. Compreenda a sua dor e mostre como você pode curá-la.
Considerações finais
Este artigo procurou mostrar a importância da utilização de dados como ferramenta para a tomada de decisões e para a melhoria de processos. Em particular destacou a importância de se construir uma cultura de dados no setor público, pois, os serviços estatais estão em uma escala maior que os da iniciativa privada e a imagem que os cidadãos possuem da administração pública em geral não é das melhores.
Buscou-se mostrar também que a maturidade em dados é um processo contínuo que requer a participação e o comprometimento de todos dentro de uma organização. Falou-se da importância do letramento em dados, e dos pilares que permitem construir uma cultura em dados.
Por fim, mostrou-se quais são as etapas necessárias para a aquisição de uma cultura de dados, passando por treinamentos, estabelecimento de metas até a aquisição da habilidade de storytelling.
Cada vez mais organizações estão se guiando por dados e o setor público precisa acompanhar esta tendência.

